terça-feira, 13 de abril de 2010

ESTRUTURA SOCIAL
Os bantandu têm uma estrutura social que não é diferente da estrutura social congo. Eles se valem dos mesmos elementos constitutivos da sociedade de se valem todos os congos. Todo o universo social é determinado pelo traço de descendência e esse traço engendra toda a sociedade congo. A ligação com a mãe é o traço determina entre esses povos. Nesta visão acredita-se que só a mãe transmite sangue à criança através de seu cordão umbilical e a criança é mais ligada a sua mãe que a seu pai, que é quem lhe transmite o sopro da vida. O indivíduo existe sempre dentro da mãe e o papel do pai é mais socializador após o seu nascimento.
Da mãe, o indivíduo recebe o poder, a herança, as energias ocultas, o pertencimento à família. O pai é, pois o tutor até a autonomia da criança, quando ela passa para a autoridade do tio materno, o irmão de sua mãe de quem ele pode herdar tudo. O pai desse indivíduo deixará herança para seus sobrinhos filhos de suas irmãs.
ESTRUTURA TRADICIONAL
O clã (luvila) é um espaço teórico de pertencimento à família. É a identidade de base em que se assentam todas as pessoas vivas, mortas e que estão para nascer, numa filiação matrilinear, de acordo com as origens mitológicas congo. Assim, neste espaço definido, todos têm direito a um mesmo tipo de vida mesmo que não habitem juntos. O clã lhes dá um espaço de pertencimento familiar e uma referência identitária, individualizada e distinta por um nome próprio. Ter um nome de clã, para aquelas pessoas que não se conhecem à priori significa pertencer à mesma família, virem do mesmo ramo, da mesma fonte, pois de acordo com os costumes congos, as ligações do clã não se rompem nunca.
O clã se reconhece através da terra (n’toto) que é o bem de toda a comunidade e que representa o fundamento e a expressão da presença da comunidade
A terra, o território é uma verdadeira matriz dentro da cultura congo, sacralizada e inalienável, ela define a origem do clã e liga-se ao clã através do trabalho e da habitação. Um clã sem terra é obrigado a viver e trabalhar sobre terras emprestadas, reduzindo-se dessa maneira à escravidão. A terra permanece um bem de todos os membros do clã, por isso são estabelecidos tabus em torno da terra ou interditos que todos os membros do clã devem observar rigorosamente.
Em caso de conflito grave que precise a separação do clã e a repartição da terra ou plantações, a separação se dá sob uma linha imaginária, tendo como baliza uma árvore, sob a qual penduram panelas para demonstrar que a separação é noturna e diurna. A separação diurna se refere a toda atividade social que se dá durante o dia, e a separação noturna refere-se a toda atividade de feitiçaria.

A linhagem (kanda) reagrupa as pessoas descendentes de um mesmo ancestral, igualmente as que estão distantes e que não podem servir de referencia na organização das relações de assistência recíproca.
O ventre (kivumu) reagrupa pessoas que tem um mesmo ancestral no seio da linhagem e participam de uma vida comum, ou de solidariedade afetiva obrigatória e recíproca.
A mãe (ngudi) é um agrupamento de pessoas em torno de um ancestral direto ou de um mais velho vivo e responsável.
Governo da Casa (Nzo) é o menor nível de agrupamento do clã. É a unidade residencial que reagrupa as pessoas que não são filhos da mesma mãe, nem pertence à mesma linhagem, nem são do mesmo clã, mas se colocam todos sob a autoridade de um homem (de um pai)

quinta-feira, 11 de março de 2010

AS FAMÍLIAS DE SANTO NO CANDOMBLÉ DE CONGO-ANGOLA

AS FAMÍLIAS DE SANTO NO CANDOMBLÉ DE CONGO-ANGOLA

Em um artigo intitulado TOMA KWIIZA KYA KIZOONGA BANTU! NZAAMBI KAKALA YETO! de Taata Lubitu Konmannanjy – Unzó kwa Mpaanzu – Raimundo Nonato da Silva, publicado no site http://www.inzotumbansi.org/, o autor nos apresenta uma composição das famílias de santo pertencentes ao candomblé de congo-angola no Brasil.
Segundo ele, o candomblé de congo-angola compõe-se de cinco grandes famílias sendo a primeira delas a família de Maria Nené, Sra. Genoveva do Bonfim, seguida de Gregório Makwende, depois da família Amburaxó, do Sr. Miguel Arcanjo de Souza, da família de Mariquinha Lemba e da família Gomeia, do Sr, Joãzinho da Goméia, Tatá Londirá. Ainda segundo o autor, em entrevista dada a nós no dia 21.01.2010, na sede da Acbantu em Salvador-Ba., a família de Maria Nenê é de origem muxicongo, a de Makweende é de origem ovimbundo, a de Mariquinha Lemba é de origem kimbundo, enquanto a Amburaxó e a Goméia já nasceram misturadas com outras nações.
A partir dessas informações faremos uma pequena reflexão sobre a composição “étnica” do Candomblé de Congo-Angola no Brasil de hoje. Essa modalidade religiosa que se contrasta com outros candomblés de outras nações, como a nação de Ketu e de Efon, tendo como parâmetro as línguas rituais e o toque de atabaques, se ampara no mito das origens – fundadores de raízes- e na língua ritual assim como em certos ritos praticados em suas casas, como únicos e pertencentes só a sua raiz ou sua casa. Alguns têm idéias claras a respeito desses grandes agrupamentos familiares, mas a maioria apenas sabe a descendência de seu fundador, que pertencia inicialmente à determinada família, quando muito.
Existem no Brasil hoje uma maioria de casas de Candomblé da vertente Congo –Angola e podemos enumerar as principais raízes, como sendo o Tumbeici, cuja fundadora foi Maria Nené –Maria Genoveva do Bonfim, Mameto Tuenda Dia Nzambi era gaúcha de nascimento e foi iniciada por Roberto Barros Reis, um liberto de Cambinda, provavelmente no início do século XX. Segundo o depoimento oral dos antigos era mulher muito enérgica, de semblante fechado, riso difícil, mas de caráter irrepreensível e bom coração, como prova o ato de adotar inúmeras crianças, alguns falam em 17 outros em 21, que criou como filhos até a fase adulta. Exercia a profissão de corretora de imóveis e Edison Carneiro a coloca na galeria das Sacerdotisas mais amadas da Bahia da sua época. Durante a perseguição movida pelo delegado Pedro Gordilho ao povo-de-santo, conta a história quase lendária que Maria Neném foi a única a nunca ser molestada pelo delegado. E que inclusive, corajosamente colocou em sua casa uma placa com os dizeres – cá te espero –numa clara afronta ao poder do sanguinário delegado. O terreiro Tumba Junçara fundado por Ciriáco, o Bate-Folha Salvador, fundado pelo lendário Manuel Bernardino da Paixão, o Kupapa Unsaba do Rio de Janeiro, fundado por João Lessengue, nos anos 30 do século XX.
Sendo assim, todas essas raízes pertenceriam a família de Maria Genoveva do Bonfim, pois Manuel Ciriáco e Bernardino da Paixão foram filhos diretos de Maria Nenê, e João Lessengue foi feito ritualmente por Manuel Bernardino da Paixão, tornando-se dessa maneira neto da fundadora. Também pertence a essa família outra raiz importante, o Viva-Deus, do Sr. Feliciano, cujo nome é mesmo Terreiro Viva-Deus, está situado na Estrada das Barreiras 1233E – Bairro Cabula Salvador-Bahia. Foi fundado em 1946, pelo Sr.Feliciano Alves dos Santos, que era marinheiro de profissão, mas também era Babalorixá, filho de Oxalá com Omolú, e tinha como digina Orisasi. Importante destacar que Feliciano era de nação Ketu, de uma linhagem do recôncavo, e que tal linhagem ainda existe com casas em vários estados brasileiros, conservando o nome inicial de Viva-Deus. Era filho de santo de Zé do Vapor, Babalorixá muito conhecido em Cachoeira, Cidade do Interior da Bahia. A primeira Nengua[1] do terreiro Viva Deus, junto com Sr. Feliciano, foi a Sra Francelina Evangelista dos Santos (D. Miúda), filha de Dandalunda, cuja digina era Diá Lubidi, ela sim, filha de santo de Maria Genoveva do Bonfim e que implantou os ritos congo-angola, no terreiro recém formado do Sr. Feliciano.
Todas essas raízes pertencem, portanto, a família Tombeici por terem seus fundadores saído das mãos da matriarca, sendo esse um traço que demarca a origem nessa e em outras vertentes do Candomblé.
Gregório Makwende é outra figura emblemática para o Candomblé de Congo-Angola. Filho carnal de Constâncio Silva e Sousa, angolano de nascimento, de quem herdou o terreiro, nasceu em 1874 e faleceu em 1934. Quanto a família de Makwende, segundo o próprio artigo citado, permaneceu inter-famílis, e só pertence a ela, de forma restrita, os membros carnais de descendentes de Gregório Makuende.
De Mariquinha Lemba sabe-se pouquíssima coisa, pois segundo os relatos orais e há poucos dados sobre a mesma em Edison Carneiro. Retratam-na como uma mulher de gênio difícil, não afeita a visitas de desconhecidos e muito menos de brancos. Sabe-se que constituiu uma grande família, da qual o articulista em questão faz parte. Há inúmeros descendentes dessa matriarca, mas a maioria das casas encontra-se em Salvador ou no estado da Bahia. Aqui no sul não temos conhecimento de descendentes de Mariquinha Lemba.
Quanto a família Amburaxó, do Sr. Miguel Arcanjo de Souza sabe-se que a maioria adotou os rituais da nação ketu e portanto, saíram da esfera do Congo-angola. Existem muitos descendentes do Amburaxó, mas a maioria continua executando os ritos da nação ketu.
Uma das maiores famílias de santo da nação congo-angola é a família Goméia. Espalha-se do nordeste em direção ao sul e sudeste e ainda hoje goza de muito prestígio de adeptos e de público.
João da Goméia, assim chamado por causa do nome do terreiro que dirigia em Salvador-Ba. veio para o Rio de Janeiro e aqui fundou um terreiro que se tornou célebre pelas suas festividades. Bailarino profissional, levou para o palco a dança dos deuses coreografada, freqüentou a mídia e tornou o candomblé conhecido através de seu carisma. Formou talvez a maior família de candomblé congo-angola apesar das muitas críticas que recebeu e ainda recebe mesmo após sua morte. Principalmente no Rio de Janeiro e São Paulo há muitos descendentes de João da Goméia e que se orgulham por sê-lo.
Nessa enumeração das famílias postado em artigo por Raimundo Nonato da Silva gostaríamos de tecer alguns comentários que me parecem pertinentes na tentativa de esclarecer alguns pontos que nos parecem obscuros.
Tomemos como ponto de partida, que a história dos candomblés em geral e dos candomblés de congo-angola em particular não foram ainda escritas. Do candomblé de ketu já há algumas obras publicadas e do candomblé de gege, apenas uma, mas do candomblé de congo-angola tudo permanece no terreno da oralidade, o que dificulta em muito conhecer as verdadeiras origens e raízes de cada segmento.
Um outro ponto a ser considerado é que não existe unanimidade nas histórias de cada raiz. É chamado pelos angoleiros de raiz ou Ndanji cada grupo de casas que pertençam ao mesmo fundador. Assim sendo, existiria a raiz Tumbenci, a raiz Tumba Junsara, a Raiz Bate-Folha, a raiz Viva-Deus e talvez outras. Aliás, cada raiz advoga para o si o maior grau de pureza, de proximidade com os ritos africanos, à fidelidade aos padrões e ritos aprendidos, e não existe um conceito de congregação religiosa como em outras religiões. Há sim, muitas disputas e dissensões, agora explicitadas com maior clareza no âmbito da internete em comunidades de páginas de relacionamento, onde os membros procuram minimizar a força de outras casas ou de outras raízes com o intuito de valorizar mais as suas. Há na verdade, no cotidiano candomblecista, um fenômeno chamado “fuxico” que se constitui em tudo saber, tudo comentar, tudo criticar, e que funciona como cimentação necessária para a sobrevivência de uma religião sem fontes escritas. Como se trata de valorizar a palavra do “mais-velho” há muitas histórias controversas que circulam com ares de verdade, logo desmentidos por outros, esses sim, segundo eles, os melhores e maiores conhecedores da verdadeira história, e assim, o “fuxico” circula, criando novas histórias e novas versões para um mesmo fato. Sempre há nas rodas de conversa em candomblé, alguém que conhece “melhor” um fato narrado por alguém e pode e deve fazer a complementação necessária para o acontecimento, ou porque conheceu as personagens ou porque conheceu alguém que presenciou o evento em questão.
Nas comunidades de relacionamento da internete, que de certa forma substituem as longas conversas nos terreiros, há inúmeras polêmicas e discussões a respeito de atos litúrgicos, maneiras de cantar, o que é certo ou errado, e é claro, a casa dos outros está sempre errada, a certa, a correta, a mais tradicional é sempre a de quem faz uso da palavra. O candomblé que era restrito a atividade inter-murus, hoje espalha-se por um meio de comunicação popular, lugar onde todos têm a oportunidade de expor suas idéias e dar prosseguimento ao “fuxicos” do terreiro. Numa sociedade sem provas documentais e sem historiadores dispostos a levantar essa história, o que vale é a palavra como legitimador dos saberes.
Vejamos a composição das famílias de santo e suas respectivas composições lingüísticas para tentarmos elucidar a fala de Raimundo Nonato da Silva. Ele afirma em seu artigo que são cinco famílias, sendo uma de origem muxicongo, outra de origem kimbundo, outra de origem ovimbundo e duas que já nasceram misturadas com a nação de ketu, não tendo portanto, uma identidade muito definida. Fiquemos, por enquanto, com as três cujas identidades são de origem bantu sem mistura, pelo menos num primeiro momento. As três origens que ele dá, muxicongo –de fala kikongo –Maria Nenê, a outra família teria sua origem no meio cultural ambundo – de fala kimbundo – Mariquinha Lemba e a terceira como de língua ovimbundo – Gregório Makwende.
Parece-me que o articulista chegou a essas conclusões a partir de uma série de reuniões que ele conseguiu realizar com o povo de santo angoleiro de Salvador-Ba. através da Acbantu - Associação Cultural de Preservação do Patrimônio Bantu - numa série de eventos denominado de Kizoonga Bantu no período de 11 a 14 de Fevereiro de 2003. Através dessas reuniões e cursos de língua kimbundo e kikongo pode-se colher dados importantes para se chegar a conclusão do que ele expõe no referido artigo, o que consideramos uma grande contribuição para se, aos poucos, conhecer melhor esse universo religioso.
No entanto, vemos com certa reserva as conclusões de Raimundo Nonato da Silva, tendo em vista os ritos e nomes ainda existentes no Candomblé de Congo-Angola e que foram registrados por Edison Carneiro (CARNEIRO: 1982) nos anos 30. Os ritos encontrados no interior das casas de santo, são em sua quase maioria de extrato congo, principalmente de Cambinda, como demonstramos em outro trabalho nosso.(ADOLFO;2010) O próprio termo Nkissi, sinônimo de divindade no universo lingüístico congo foi o que permaneceu e predominou no Brasil. Outros povos bantu chegados ao Brasil mantêm, em África, nomes diferentes para suas divindades, nomes que não foram registrados por aqui, pelo único etnólogo que registrou as manifestações culturais dos bantu na esfera religiosa. Se as famílias Mariquinha Lemba e Gregório Makwende fossem respectivamente do universo kimbundo e Ovimbundo, com certeza teriam nomes próprios para suas divindades, mas isso não acontece. Também, Edison Carneiro ao falar deles no seu Candomblés da Bahia (CARNEIRO;1982) nomeia-os como pertencentes a nação congo, juntamente com Manuel Bernardino da Paixão do Bate-Folha. Porque Edison Carneiro os dá como congos, se os mesmos eram Ambundos e Ovimbundos? Teria sido falha na observação do etnólogo, que convivia com as maiores autoridades do candomblé em sua época? Ou seus informantes também não conseguiam distinguir as línguas que falavam? São interrogações que ficam por enquanto em aberto a espera de pesquisas mais acuradas. No terreno das religiões bantu no Brasil, sobretudo do Candomblé Congo-Angola, tudo está ainda por ser feito.
Creio que uma possível explicação esteja na questão da língua ritual. É possível que uma porção maior do vocabulário das casas de Mariquinha Lemba seja de origem kimbundo, assim como a casa de Makwende use mais do Ovimbundo, para praticar os mesmos rituais da família Maria Nené. Continuamos acreditando que o candomblé de congo-angola praticado no Brasil tenha suas raízes mais profundas nas terras de Cambinda, com apreciáveis contribuições de outros povos. E a chegada de escravizados não obedecia a nenhum critério menos ainda o das linguagens. Aliás, havia uma política de se misturar indivíduos de grupos lingüísticos os mais diferentes para que todos só tivessem como meio de comunicação a língua portuguesa, evitando assim fugas e sublevações. Nesse contingente populacional circulavam línguas africanas diferentes com predomínio de umas sobre as outras de acordo com a quantidade numérica dos falantes. Claro que, acreditamos que aconteceram importantes trocas lingüísticas até porque todas as línguas tinham um tronco comum que era a raiz bantu, apesar de serem línguas, se aparentadas em alguns pontos, muito diferentes em outros.
Assim como houve misturas lingüísticas também aconteceram acréscimos e supressões de determinados ritos, alguns já pouco lembrados como conseqüência do rapto, da captura, dos duros dias a espera dos navios e finalmente a viagem penosa e o mercado de escravos no Brasil. Traziam na lembrança e no coração seus ritos e memórias, mas agora intervalados pelos duros dias iniciais de cativeiro e pela difícil vida do trabalho escravo. Restabelecer os laços com a África e com um passado perdido encontrou na religião um refrigério para os que haviam perdido a liberdade lá do outro lado do Atlântico e não viam nenhuma saída para mudar a situação em que foram colocados pela condição servil.
Voltando a questão das cinco famílias enumeradas por Raimundo Nonato da Silva, acrescentaríamos que há candomblés que não foram enumerados nessas famílias. Para citar apenas três, a raiz de Nanã de Aracaju, com ramificações importantes em São Paulo-Sp. através de Mãe Manadeuí (PRANDI:1991) e outras casas da mesma raiz, e o Tombeici de Ilhéus, fundado ainda no século XIX e portanto anterior ao Candomblé de Maria Nenê. É necessário que se descubra a origem da casa de Nana de Aracaju, que permanece aberta no mesmo local de sua fundação, e segundo notícias, desenvolve importante papel social na cidade, assim como o do Tombeici de Ilhéus, com uma intensa programação cultural e ainda, uma outra raiz na cidade de Nazaré das Farinhas-Ba. chamada de Congo de Ouro, da qual temos notícia apenas por ouvir dizer.
É importante frisar que a organização social e familiar entre os bantu em África se organiza em torno dos clãs, que é um conjunto de famílias sob a descendência matrilinear. Um conjunto de clãs de ancestral comum se estrutura em Kandas, cujo fundador é comum a todos os membros da kanda. Uma primeira unidade seria o clã e uma unidade maior seria a Kanda.
Parece-nos que esta estrutura permaneceu no Brasil na esfera dos cultos religiosos. Cada casa de santo formaria um clã, enquanto as famílias seriam as kandas, dada as características apresentadas.

“Comme dans de nombreuses sociétés bantoues, deux cadres fondamentaux régissent lá vie: populations kôngo em general, et dês lari em particulier: Il s’agite d’abord de l’intistitution du kánda, Le matrilignage – terme que l’on traduire schematiquement par famille – (...) (Nsondé:1999, pg.29)

Por exemplo, a kanda de Maria Nenê é formada a partir de um ancestral comum, ela própria enquanto fundadora, e o ancestral mítico, o Nkissi Kavungo. As várias raízes, pertencentes a essa kanda, como o Tombeici, O Tumba Junsara, com suas várias ramificações, o Bate-Folha de Salvador e o Kupapa Unsaba do RJ seriam os clãs. Os laços de parentesco permanecem no terreno religioso porque os familiares desapareceram por efeito dos horrores da escravidão. Reconstruiu-se dessa maneira, nos terreiros religiosos e nos espaços sagrados a organização social do povo bantu e assim permanece até hoje.
Quanto ao clã, vale a pena ouvirmos João Vicente Martins em seu trabalho sobre os bakongos:

“Como já referimos, a base da organização social bakongo ou Tukongo é a família e a ela pertencem todos os parentes, razão pela qual todos os elementos familiares estão sob a alçada e autoridade de um “mwata” (chefe), assistido por um ajudante. Por sua vez, todas as aldeias ou clãs estão subordinados ao “fumo” (chefe de etnia). (MARTINS: 2008, Pg.240)

Portanto, de acordo com nossa argumentação podemos ver que cada terreiro está sob a guarda de um Sacerdote (Nganga) que exerce o poder total sobre a população daquele terreiro, mas não tem nenhuma jurisdição sobre os outros terreiros. Na organização do Nzo, forma-se uma rede de auxiliares, mas o chefe principal é sempre o Pai-de-Santo, que por sua vez, só deve submissão a chamada Casa Matriz, local e sede da Kanda.
Sendo assim, as kandas enumeradas por Tatá Komaneji deverão receber novas irmãs na medida que os estudos sobre os angoleiros começarem a ser desenvolvidos.
O trabalho da Acbantu é pioneiro na área e poderá render outras pesquisas de igual teor, uma vez que Raimundo Nonato da Silva é historiador e poderá desenvolver pesquisas mais detalhadas e profundas na área. Aguardemos novas descobertas, interessantes e sérias como essa, vindas da parte da Acbantu.
REFERÊNCIAS
CARNEIRO, Edison. Candomblés da Bahia. São Paulo: Editora Tecnoprint, 1982.

MARTINS, João Vicente. Os bakongos ou tukongos do nordeste de angola.Lisboa:Imprensa Nacional-casa da moeda, 2008.

MARTINS, Joaquim. cabindas – história – crenças – usos e costumes. Disponível em http://www.cabinda.net.

PRANDI, Reginaldo. Os Candomblés de São Paulo. São Paulo: EDUSP, 1991
http://www.inzotumbansi.org/,
[1] A respeito das nomenclaturas dos cargos e funções no candomblé congo-angola ver em capítulo 4

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

TRADIÇÃO BRASILEIRA VERSUS GTRADIÇÃO AFRICANA

Tradição brasileira versus tradição africana



O candomblé brasileiro chegou ao Brasil vindo de África e aqui sofreu uma série de modificações e adaptações para a sua própria sobrevivência. Além disso, por não ter escrituras como as outras religiões, amparou-se na tradição da oralidade e assim tem permanecido até os dias de hoje. A oralidade é a grande arma de sustentação do Candomblé tanto no aspecto positivo quanto no negativo.
A oralidade é uma arma de dois gumes. Ao mesmo tempo que preserva valores e tradições, degenera esses valores por ser um processo de transmissão oral e todos sabemos que na transmissão muita coisa se perde e se acrescenta. Há um dito popular muito sábio que diz: quem conta um conto aumenta um ponto. Esse é o risco da oralidade do qual o candomblé não sai ileso.
Um outro ponto a ser considerado é quanto aos conhecimentos trazidos de África pelos escravizados. As condições em que foram capturados, transportados e finalmente vendidos no Brasil pode não ter feito deles os melhores interlocutores. Mas foram eles, que correndo todos os riscos nos legaram esse patrimônio cultural e religioso que hoje chamamos Candomblé.
No entanto, o tempo passa e sua ação inexorável tudo apaga, o bom e o ruim. Os tempos heróicos e as perseguições dos senhores e da polícia passaram, apesar de termos ainda hoje resquícios dessa perseguição. Mas hoje, bem ou mal, em melhores ou piores condições o Candomblé goza de relativa liberdade de expressão. E uma nova camada de candomblecistas, filhos da periferia sim, mas com condições de ir às escolas, as faculdades, de fazerem viagens nacionais e internacionais, estão querendo saber um pouco além do que vai o cabedal oral que nos foi legado. E estão em busca, através de livros, viagens e cursos aquilo que os mais velhos não estão podendo passar, porque além do aspecto religioso, o candomblé tem também o aspecto cultural.
E aí se dá o grande embate. Muitos estão indo à África, através de viagens ou de bibliografia no afã de conhecer melhor nossa liturgia e compreender melhor nossos afazeres relativos ao sagrado. Claro que os puristas, os donos do saber, os acomodados, os pouco alfabetizados estão em polvorosa. Porque seu saber é tão escasso que temem perder o seu posto, posto esse fundado por eles mesmos, de detentores do saber iniciático. Julgam-se donos de tradições únicas, donos de raízes, detentores de um poder que não existe.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

L'esprit du temps de pharaon et l'esprit bakongo, esquisse d'une étude des similitudes

L'esprit du temps de pharaon et l'esprit bakongo, esquisse d'une étude des similitudes

Autor: Magloire MPEMBI d.b. NKOSI MD
Docteur en Médecine (Université Kongo)
Assistant en Neuropsychiatrie (CNPP MONT AMBA UNIKIN)
E-mail : jbmagloirem@yahoo.fr
Website: http://www.afrikadiata.fr.nf
* 1 J'emprunte cette expression au titre de l'ouvrage d'Erik Hornung :


Extraído e traduzido livremente pelo Prof. Dr. Sérgio Paulo Adolfo

http://memoireonline.free.fr/10/07/623/l-esprit-du-temps-des-pharaons-et-l-esprit-bakongo.html


O ESPÍRITO DOS TEMPOS DOS FARAÓS (1) E O ESPÍRITO BAKONGO: ESBOÇO DE UM ESTUDO DAS SIMILITUDES.(2)
Em resposta a interrogação do Professor Augustin AWAK’AYOM questionando porque os lingüistas africanos ignoravam o parentesco genético do Egito Faraônico e das línguas negro-africanas, demonstrado em 1941 por Liliane Homburger, continuam preferindo uma classificação empírica (3)
Lusala Lu NE Nkukaa publicou no Congo Afrique quatro estudos afrocentricos dos mitos, lendas e contos negro-africanos e egpícios.(4)
A origem das palavras e dos conceitos analisados ao longo desses ensaios prefigura uma síntese magistral das ligações entre o Egito faraônico e o Kikongo também sobre o plano semântico e gramatical.
Não se discute mais sobre a negritude dos antigos egípcios, e nem é necessário permanecer no terreno das provas perempentórias, atestando a continuidade histórica entre os Rametou (5) e os negros africanos atuais.
Nos nos propomos aqui a um esboço, uma aproximação antropológica entre a civilização kongo e a civilização egípcia tendo como base a realeza (I) a religião (2) os hábitos e costumes (III) e a moda (IV)


I. A REALEZA
“Da identidade de concepção que existe, em geral, entre o Egito e o resto da África negra, a concepção da realeza é um dos traços mais impressionantes” (6)
Dessa forma, com essas palavras, Diop começa o parágrafo sobre a realeza no Egito e na África Negra no seu livro inaugural. Sem se deter no caráter sacro-santo da função real, o autor descreve um rito, a festa do Sed, rito esse assentado sobre a conecpção vitalista comum na África. O faraó não podia reinar de fato e de direito sem estar em plena possessão de suas forças. Para regenerar suas forças vitais, ele era simbolicamente levado a morte no decorrer da cerimônia a que era submetido. “ O rei passava por um rejuvenescimento aos olhos do povo e estava então apto a assumir suas funções.” (7)
Entre os Kongo, o rei e o poder são as primeiras ligações virtuais de equilíbrio cosmobiológico universal. A força do Rei e a prosperidade coletiva permanecem uma só. (8) A perturbação mais grave que pode acontecer ao Mani Kongo é a loucura (do poder?). Ntinu Wene, o primeiro entre eles, passou por essa amarga experiência(9). A intronização, Nasku Lau tira do rei sua calda de búfalo a fim de protegê-lo mental e psiquicamente. Este ato era essencial para a vida do rei e de seu reino.
No Egito como no Kongo, o rei é ferreiro. E aqueles que exercem essa profissão o fazem em nome do rei. Assim “o trabalho de forja (lufu) era considerado como um trabalho especial e cercado do Nkisi e de numerosos tabus” (10).
Se o Rei goza das mesmas considerações no Egito tal como Kongo(11) o comportamento das pessoas em sua presença deverá apresentar similitudes nas duas áreas culturais. Joseph Ki Zerbo descreve as duas cortes: “.No alto da pirâmide social, há o Faraó, que se distingue dos outros homens por ser considerado divino (...). Em sua presença, as pessoas se prostram e cheiram o solo.” (12)
Diante dele, se ajoelham ou se prosternam, jogando poeira sobre a cabeça antes de implorar sua benção (...) (13)
Os egípcios e os kongo cheiram o solo e aspergem sobre a cabeça a terra a fim de monstrar sua submissão ao soberano.
II. Religião
Traços comuns em matéria de religião entre dois povos distantes no tempo e no espaço revela forçosamente um contato íntimo. A religião é sempre um traço por excelência da expressão livre do imaginário de um povo, e, não há chances que duas comunidades distantes tenham a mesma idéia de Deus por acaso.
Neste assunto Egito e Kongo se aproximam.
Os antigos egípcios e os bakongo são monoteístas. Deus tem o mesmo nome entre os dois povos. Imn (Amon) – Rá invertido da Nzambi; nza (Ra) e mbi (Imn com a supressão de m) o mb é o m egípcio reforçado; notemos que nza designa em kikongo a esfera solar vermelha (14)
A morte e a vida ocupam um lugar importante daí a pompa que cercam os funerais tanto no Egito quanto no Kongo.
A finalidade dos textos das piramides era de permitir ao defunto de adentrar no reino dos mortos (céu) e lá encontrar a felicidade (...)
Era necessário atravessar certos cursos d’água; para isso certos encantamentos eram colocados a sua disposição para que ele, forçando a passagem não olhasse para trás quando atravessasse a água.
Ás vezes, se o navegante se obstinava era necessário implorar ao deus Rá de o fazer obedecer. “ O Rá recomenda ao defunto olhar para trás, passar o Lago-de-Lys, para que ele possa tomar sua barca ali e poder passar aos deuses do outro lado do Lago-de-Lys, em direção do lado do céu.
“um outro local dos mortos que menciona a tradição kongo, é o Mpemba, o local dos mortos através do mar.(...) Os mortos, para chegar ao Mpemba, devem seguir o itinerário do sol. Porque a concepção dos antigos bakongo era que o movimento circular do sol parte do fundo do oceano, passando sobre nossas cabeças. O mundo era como uma grande montanha cercada de água. O homem vivia sobre esta montanha. De lá pode ver o sol se elevar sobre as águas e retornar e mergulhar novamente nelas, que é o lugar dos mortos, para os iluminar depois de ter iluminado os vivos. Para se chegar ao reino dos mortos (ku Mpemba) o sol passa pelo oceano (mbu, kalunga) e se ocupa em comer os caranguejos. Então, o sol, ele mesmo se torna um caranguejo, ou seja ele se transforma na canoa que transporta as almas au Mpemba(...)
Os bons vão se juntar aos ancestrais e os maus se perdem no caminho. Para alcançarmos a água teremos que ter um coração puro e ao nos juntarmos aos ancestrais teremos uma vida de plena paz e felicidade.
Esta descrição do ultimo plano de vida egipicioé a atualização do Livro dos Mortos citado por Braden. Os elementos singulares importantes se encontram nos dois textos: a água, o barco lá, a piroga aqui, as dificuldades sobre o caminho, uma constante referência ao sol. Que este último se transforme em caranguejo para transportar as almas no oceano lembra forçosamente a cosmogonia héliopolitana da criação. As águas primordias chamadas Noun – em egípcio existir, tornar a ser – chama ao mesmo tempo Rá – a ordem – e a serpente Apophis – a desordem – à existência (18). Cada noite, a serpente ameaça devorar o sol quando ele retorna ao Noun. Cada manhã o sol emerge Du Noun vitorioso.
Entre os bakongo, o destino reservado as almas que não entraram no paraíso e de se tornar Tebo. Van Wing nos dá a descrição: “um maldoso que viole todas as leis dos ancestrais ou do país, ele se tornará um tebo, um ser infecto, nauseabundo de cabelos vermelhos, errando sobre a terra sem descanso nem repouso, em comercio com os ndok os feiticeiros que sugam o sangue” dos homens (19). Cento e cinquenta e três páginas adiante, Van Wing é mais preciso: o Tebo é pequeno, feio, pele acinzentada, uma longa cabeleira russa, um odor nauseabundo e come carne humana. (20). Ora, no panteon egípcio existe Seth que os gregos chamavam de Typhon. Diop o descreve: “Seth, Typhon, o príncipe do mal e da desordem, o símbolo da traição e fruto da união entre um branco de cabelos avermelhados; até o fim de sua história os egípcios massacraram espontaneamente este tipo de branco como um ser impuro.” (21) Marguerite Divin o descreve como: “Era o terceiro filho da noite, branco de pele e vermelho de cabeleira” (22) Que dizer mais se não se inclinar ao poder dos fatos. As precisões de Van Wing falando em longa cabeleira vermelha, errante, permitem decalcar Tebo sobre Seth e de sobre ainda explicar porque os gregos o chamavam de vento errante...
III . OS COSTUMES

Os egípcios como os bakongo eram circunscisos. Os últimos continuam a praticar a circuncisão sem necessidade de explicar o seu sentido profundo. Este traço da cultura era também característica dos antigos egípcios em quem Heródoto se apoiou para demonstrar a identidade entre aqueles e os Colches. (23) Um outro elemento de similitude é o horror à homossexualidade entre os dois povos.
Na mitologia egípcia ela aparece como um atributo de Seth o príncipe do mal que não hesitou em violar seu sobrinho Horus.
E entre os bakongo?
Lá onde o comércio não era ponto permitido aos Brancos, com algum traço de pecado contra a natureza, constatavam os Capuchinhos em 1747. Dois séculos mais tarde, Van Wing tcava no mesmo tema: “
A homossexualidade continua muito rara (26) As p´raticas homossexuais são vistas como abomináveis e castigadas por Nzambi.”(27)
Mais uma vez a comunhão dos pontos de vista é perfeito.
IV . A moda
“…o rei e seus cortesãos se vestem de tecidos feitos de palmas(…)na frente usam como ornamento, pendente, a maneira de um avental, peles delicadas e bonitas, como as peles de pequenos tigres, de almíscar, pele de marta ou de animais parecidos,(...) (28)
“o rei e os nobres portam sapatos à antiga como se pode ver nas estátuas romanas...” (29)
O porte de peles de animais como ornamento e aquele das sandálias “a antiga” existia belos e bem no Egito. A acreditar em Ki-Zerbo esta tradição restou muito viva. (30)
A propósito do penteado entre os Bakongo, Pigafetta e Lopez nos informam que “ Eles (o Rei e seus cortesãos) se penteam de um pequeno boné, quadrado no alto, de cor vermelho e amarelo, que lhes cobre o alto da cabeça e que para além de um ornamento é sobretudo uma defesa contra o vento e o sol.” (31)
A cobertura bicolor do penteado acontecia igualmente com o Faraó. “os Faraós reuniram dois reinos e por isso eles usam a coroa vermelha do norte sobre um boné branco que era a insígnia dos reis do sul.” (32)
A presence das duas cores era o símbolo da unificação das duas terras. Entre os bakongo, muitos Nkisi (33) eram compostos entre outras coisas de uma terra vermelha e uma terra branca. (34)
Como se pode ver, a referência ao Egito mesmo no plano místico é constante.
Conclusão
Chega-se seguidamente a conclusão que os africanos que possuem uma inteligência superior o fazem por “concessionismo” ou para salvaguardar as amizades transculturais, são aqueles que tem os grandes idéias, a ponto de terem um discurso científico contraditório. Este é, por exemplo o grande drama de Joseph Ki-Zerbo. Ao afirmar que existe um “substratumde um parentesco original” entre o Egito (35) e as civilizações negro-africanas em razão da quantidades de traços culturais comuns, ele explica os últimos como “eixos amortecidos e degradados da civilização do Nilo” Isso nos deixa perplexos!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

AS ACADEMIAS INICIÁTICAS DO CONGO

AS ACADEMIAS INICIÁTICAS DO CONGO

Eu disse anteriormente que existia no Reino do Congo academias iniciáticas onde se ensinava a ciência do Kindoki. Eu citei o Lemba, o Kimpassi, o Buelo e o Kinkimba. Se bem que os racionalistas tem feito de tudo para diminuir o papel dessas academias e as apagar da memória dos Basikongos, elas continuam a viver e a preservar o essencial. Entretanto, a história fala mais do Lemba e dessa instituição podemos recolher abundantes informações. Portanto, além do Lemba, o Kimpasi continua bonito e bem vivo. Essas duas academias eram as mais representativas no Reino do Congo dia ntotila. O Lemba era mais freqüente ao norte do Nzadi Kongo, o rio Congo, e o Kimpasi tinha seu domínio no sul do mesmo rio.

O Lemba

A doutrina do Lemba é a parte da cosmogonia congo que ensina que o homem original Mahungu foi criado a imagem de Deus, homem e mulher. Ele manifesta perfeitamente os atributos de Deus, era semelhante a Deus e tinha seu domínio sobre todas as coisas da terra. Como desobedecesse, ele perdeu sua divindade e acabou dividido em dois: homem e mulher. Este mito todo mundo conhece, mas só os iniciados sabem que na realidade Mahungu, o homem divino não é nunca dividido em dois, mas que a humanidade apenas tem a impressão dessa divisão, mas que o homem original vive em cada um de nós. E que podemos voltar ao estado original, a nossa forma divina, graças aos pensamentos puros. O nganga-Lemba é aquele que é capaz de restituir no homem sua consciência divina original. Ele pode estar frente a frente com os antepassados, os Nkukunyngu.
A iniciação Lemba continua viva entre os basundi no congo-brazzaville.


O Kimpasi

O kimpasi é outra academia iniciática congo e que tem como objetivo despertar a divindade do homem através de vários rituais. O kimpasi também continua vivo entre os povos do antigo reino do Congo.

sábado, 14 de novembro de 2009

O nkutu do condado de Soyo

Extraído de http://www.abbol.com/bookbank/books/aequatoria%201961.pdf
Tradução livre do Prof. Dr. Sérgio Paulo Adolfo


eJè&c\ucitorici
N° 2 24e Année, 1961
O nkutu do condado de Soyo

Entre os objetos sagrados, as insígnias do poder, bi-bialulu destinados a investidura do Manin Kongo, figura uma bolsa, nkutu. Uma bolsa idêntica pertence ao condado de Soyo, Nkukulu a Soyo.

1 – Natureza do nkutu

O nkutu é antes de tudo o atributo do caçador. É uma bolsa de fibras de ráfia ou de ananás, de fundo arredondado, com uma alça para se levar ao ombro; o aspecto é aquele de uma bolsa usada para transportar mercadorias em uma viagem. O caçador a usa para transportar tudo aquilo que é necessário para uma jornada de caça. Os objetos transportados não são nem muito volumosos nem muito pesados, artigos de caça, caixinha de rapé, folhas de tabaco, fósforos, mandioca ou noz de cola; enfim, tudo aquilo que ele poderá necessitar. Pode ser que essa bolsa, antigamente fosse uma aljava. Mas depois, com a introdução do fuzil e outras armas de fogo, o arco e a flecha foram deixados de lado, só sendo hoje utilizados para matar pequenos roedores ou pássaros. Portanto, na bolsa vão duas ou três flechas não sendo necessário o uso de uma aljava.
O nkutu é praticamente indispensável ao caçador porque é através dele que ele transporta suas munições e algum alimento como um pedaço de mandioca, um naco de carne, mas nunca uma refeição completa porque a refeição completa ele fará quando voltar da caça. Cada caçador tem sua própria bolsa e é imperdoável que um caçador mexa na bolsa do outro, ou examine os objetos que ela contém.
Nkutu não é uma bolsa de provisões. O nkutu é uma bolsa do caçador e não do viajante. Sendo assim, ele é reservado ao uso somente dos homens e nenhuma mulher o usa. É um objeto reservado como o é o arco do tirador de vinho de palma (nkozo), o cordão da cesta das mulheres (lu-abi) que nenhuma pessoa de outro sexo pode usá-lo, pois é uma proibição (vina)
O nkutu é carregado sobre o ombro esquerdo. O cordão que o sustém deve ser bem longo para não atrapalhar os movimentos de quem o está usando.
O nkutu encontra-se entre os atributos da realeza entre os baKongo. O Mani Kongo tinha seu Nkutu assim como todos os governadores de províncias, duques e condes. É de supor que este atributo era uma tradição comum a todos os senhores chefes de terra e não algo exclusivo ao Rei do Congo. Nunca ele autorizaria aos seus vassalos se fosse um atributo de exclusividade real.
A origem do nkutu atributo da realeza deve ter surgido no ciclo da caça. Seu nome Nkutu deve ter originado da palavra “ko ago”, do substantivo Nknngo, o caçador. Todas os nomes de família derivam de uma sentença que explicite o nome através de um verbo do mesmo radical. Assim Kongo, deriva Du verbo kongo-kunga, reunir,ajuntar. Ma kongo é o senhor que reúne sob seu comando as famílias e os clãs diversos. Em efeito, porque numa det Toda a vida kongo está sob o signo da caça, cheia de reminicências da vida da caça.
Ser caçador é um trabalho nobre, o símbolo do homem livre. No MaYombe ninguém era iniciado a divindade protetora da terra, Nkisi si e agregado a sociedade dos BAsemuka se não fosse um caçador bem sucedido (sinal que era amado dos deuses). Animais e florestas constituem a base do folclore indígena. No Soyo, umas das poucas constelações conhecidas, a de Orion se constitue do caçador, do cachorro e da gazela.
Por ocasião da eleição do rei as referências a vida da caça são explícitas.Vejamos o que se passava em Cabinda para a consagração do Ma Ngoyo. Após a designação do futuro rei, ele deveria permanecer na Casa do Um-elele, o chefe do clã. Os conselheiros marcavam o dia Kando, dia da semana indígena para a primeira cerimônia. O pretendente então deveria passar pela aldeia do Ntoonde ele prestava o primeiro juramento. Um Nganga dava a ele a água benzida e colocava no seu braço direito um bracelete feito de latão, chamado vindt (seria uma alusão a transmissão do Nkutu?) A cerimônia seguinte com juramento se realizava na floresta de Ntende, à margens de um lago. Uma terceira era o reencontro do futuro rei com a princesa Ma Nkata, e isto acontecia dentro da floresta. Enfim, a última, um coito realizado com a mulher chamada Yambi sempre na floresta. Um outro autor (João de Mattos – Contribuição para o estudo da Região de Cabinda) acrescenta que para a sagração do Ma Ngoyo era necessário o rapto simulado da esposa do primeiro mandatário do clã, a permanência com ela na floresta durante três dias, se alimentando apenas de frutos crus, e percorrendo grandes distâncias. Entretanto, era necessário que o rei jamais execrasse a terra, e que fosse derramado sangue humano ou de um animal de grande porte.
O Ma-kongo do ka-kongo antes de se apoderar do trono era submetido a uma regime alimentar ritual que é normalmente aquele do caçador: raízes de mandioca e coco.

3. O nkutu de Soyo

O nkutu de Soyo não tem certamente outras origens.Entretanto, um outro elemento, a lenda da fundação da dinastia o insere. Para a compreender um giro pelos costumes dos Solongo se faz necessário. Se trata do Simbi. O simbi (PL. isimbi) é um ser de uma essência superior a nossa, um ser bem real, um pouco entre o material e o imaterial – é necessário evitar o termo espiritual – é uma espécie de gênio das águas. Pode ser macho ou fêmea, como os seres humanos. Em certas ocasiões pode-se surpreendê-lo, capturá-lo e aprisioná-lo, esse feito pode ser executado por pessoas que possuem uma força espiritual superior a dele. A morada desses gênios é a água, rios ou lagoas. Preferentemente esses locais são marcados por cascatas, cavernas ou rochas, abismos ou locais mais profundos. Eles vivem lá tendo uma boa convivência com os simples mortais, mas às vezes saem para visitar os humanos como divertimento.
Esses divertimentos podem entretanto ter complicações mais sérias. O simbi pode seguir então uma mulher que venha buscar água no rio ou um homem que mergulha em busca de pesca. Nove meses depois nasce uma criança na forma de albino, ou um par de gêmeos, ou um anão. Assim se pode distinguir simbi ia nlangu, o gênio das águas, do simbi ia ntandu, o gênio da terra firme, tendo em conta a maneira como ele encarnou num humano.

A crença na encarnação de um ser de outra ordem na forma de albinos ou de gêmeos é comum em toda a etnia kongo. No MaYombe entretanto, os mbaka-baka, os pigmeus e anões não eram considerados de essência superior. Enquanto que, sob o lado esquerdo do Zaire eles são considerados seres fabulosos, de lenda. O ki-lombo é exclusivo da margem esquerda. Enquanto o nome de ki lombo seja conhecido também no Ma Yombe e empregado como nome de pessoa, muito mais entretanto que na região de Soyo. (ki lombo significa também: caravana, uma quantidade de gente)
Antes do nascimento, o simbi pode se manifestar à mãe grávida seja através de sonhos ou por certos estados particulares. Isso é comunicado ao Nganga que dará as devidas explicações.
Muitos simbi podem nascer através da mesma mulher; um dos dois virá então como precursor; esse será o ki lombo.
Em seu nascimento, o ki lombo traz os signos de sua missão. Nas espáduas carrega uma bandeirola, em duplo cordão cruzado sobre o peito, nsinga ou ndembe a nleze. Sobre o alto da cabeça possuiu uma carapuça vermelha, mpu a ki mbungu a m’enga, literalmente: boné da cor do sangue. Sobre a borda exterior da mão ajunta-se um apêndice em forma de bolsa, nkutu. É um caçador rei ou um rei caçador que chega; ui utuka ki kutu muna to k andi ie ndembe a nleze ie ‘mptt a ki mbungu me ga= ele é nascido com a camisa sobre o corpo, a bandeirola e o boné vermelho.
A criança que nasce após os gêmeos se chamava – nlandu – Após o nascimento de albinos a mãe não poderá mais engravidar. Ki lombo, numba et zuzi, ndundu e mbi são as encarnações do simbi. Toda sua vida se desenvolverá sob esse signo.
O nascimento mesmo é um acontecimento. Todos os nganga simbi, eles também pais de simbi são convocados e consultados sobre a importância e a significação do fato. A criança e a mãe deerão evitar de sair de casa, não como as outras mães, durante um mês, mas permaneceram em casa dou ou três anos. A saída –i o teta nkandi= abrir a noz de cola, porque a mãe abrirá então uma noz. Como óleo de palma cobrirá seu corpo e o corpo da criança; ou o vaika va senze = abandonar a cama onde no primeiro mês a mãe dormiu com seu filho) sempre a uma nova lua = ngonde ii zanaamene) será uma cerimônia celebrada por grande número de pessoas. Nesta ocasião toma-se uma noz de cola (kanda e sombo) menos dura que as outras porque a mãe deverá abri-la de um só golpe de pedra( muanda e mose kaka ).

Mesmo criança o simbi usufruia sempre de um estatuto especial correspondendo a sua origem. Ele é independente do homem e da mulher, pois ele é um ser especial. Todos procuram tratá-lo bem e temem por sua vingança. Acreditam que ele poderá se tornar invisível para se vingar das pessoas.
Para manifestar seus desejos ou um simples capricho o simbi se serve dum médium, seja da família seja da aldeia, aparecendo em sonho e revelando o que necessita. A pessoa prevenirá seus familiares e aqueles irão executar.
Quando o simbi adquire uma certa idade é construído para ele uma cabana igual a dos demais mas um pouco afastada. A inauguração dessa cabana corresponde a uma espécie de consagração. Outros simbi são convidados para participar da inauguração. Um pequena cesta com tampa, - unde – mas em língua io bi : kangu Kia simbi, é necessária Os outros simbi colocam nela: a ponta da cauda de um animal – fu gi ou nsisa a miakasa, em língua simbi – nsese simbi, e seu espanta mosca. – lu vemba, uma pedra calcária, que pode ser reduzida a pó, tirada das falésias – ela se chama mpezo ou nguza porque ela é empregada nas cerimônias de ngola;todos os desenhos rituais serão feitos com ela.
Ntadi a ngubia, igualmente uma pedra calcária, mas de cor ocre, utilizada para os mesmos fins que lu vemba.
Tambi Kia ngufu, o casco do hipopótamo;
Ma sevo ou ma semono, búzios do mar, que são inevitáveis em todas as cerimônias;
Ma kazu, a noz de cola, necessária para os exorcismos; o feiticeiro a masca e espalha sobre os membros do consulente;
Zi mpangu, argolas de ferro;
Meso nkana – um fruto silvestre.
Todos estes objetos são venerados pelo seu valor mágico e são necessários em todas as cerimônias religiosas.
Na casa, o simbi continua sua vida dupla. Seguidamente durante seu sono ele faz predições do futuro, previne as pessoas de algum mal ou de alguma doença que poderá atacá-las, indica remédios e meios de se livrar dos conjuros. Se alguma calamidade ameaça a comunidade o simbi preside as cerimônias de expiação, benze os fiéis.
Um certo Mbungu-mbungu, um albino da aldeia Ki-ma-uete, percorria a região de Soyo, descobrindo infalivelmente os ba kisi, os maus feitiços, aqueles que matam, e os queimando em um grande auto-de-fé.
Os simbi eram sagrados, zi toma e nsi, depositários das forças mágicas para o bem da comunidade mas também eram investidos de autoridade religiosa e de poder regulamentar o culto religioso. Como na sociedade congolesa não havia divisão entre o poder religioso e o político, eles gozavam de um grande poder sobre a vida do clã. Os simbi eram por eles mesmos iniciados e afiliados a um grande número de feitiços. Para eles não existia nenhuma prescrição ou proibição ritual.

Segundo a filosofia congolesa, a personalidade completa de um indivíduo compreende tudo que está intimamente ligado a ele: dentes, cabelos, dedos, a marca de seus pés sobre a terra, até a sombra de seu corpo. Todos estes elementos guardam um contacto intimo entre a personalidade psíquica e moral do indivíduo. Cabelos e unhas se prestam maravilhosamente a todos os feitiços. Um tufo de cabelos jogados ao vento e recolhidos por um pássaro pode se tornar causa de loucura. É por esta razão que todo que se refere ao corpo deve ser enterrados, como uma pessoa e necessitando, conservado até que a ocasião se apresente, porque a terra é como uma guardiã do clã. Pela mesma razão nenhum rei ou príncipe serão enterrados se não estiverem completos
Sempre pelo mesmo motivo o famoso nkobe mbingu, uma espécie de relicário do clã, ou melhor, a reunião sempre atual do clã, continha uma mínima parcela dos membros vivos (cabinda, kakongo). E eis porque, unhas e dentes e cabelos de simbi eram colocados quase como simbi mesmo e que o nkutu de Soyo continha um fêmur de ndudu.
Evidentemente que essas pessoas simbi dificilmente encontram casamento, mas suas qualidades superiores intervêm em seu favor. Ao simbi homem é suficiente dar uma pernada (zombuka) nas pernas de uma mulher sentada. A mulher assim designada deverá automaticamente esposá-lo.
A simbi mulher poderá deixar-se fazer a vontade. Se ela parecer grávida o sedutor deverá ressarcir a família de todas as despesas. Mas uma mulher simbi não poderá fazer comida, nem ajudar nos campos, nem executar nenhum trabalho doméstico, o que torna inviável sua vida de casada.
Enfim, o simbi mesmo morto requer ainda um tratamento especial. A crença era, se se tratar de uma criança, que era suficiente estender o cadáver numa cama e fechar a porta da casa – vela Kia simbi – que espontaneamente as formigas sairiam da terra e construiriam uma casa em torno do morto até que ele fosse coberto pela terra. Se o corpo fosse enterrado seu corpo deveria ser enterrado em peças de tecido e colocado próximo de um curso de água, próximo da casa. A casa do morto continuaria por um certo tempo a ser centro de peregrinagem.
Ne Nzinga a Nsunda, o fundador da dinastia Soyo era um simbi, da espécie ki lombo. Somente essa ligação lhe deu esse nome, ele se chamava Nzinga, o enrolado (pela corda ndembe a nzele)
Tudo assinala o ki lombo: o boné vermelho, a corda cruzada e a bolsa de caçador, atributos dos nobres Solongo. Ainda hoje em ocasiões especiais usam um largo pano passado pelas espáduas – ndembe a nleze. Um costume idêntico foi observado em Cabinda. O boné vermelho era reservado a algumas cerimônias. E a bolsa de caçador é ainda hoje insigna da realeza, um aspecto comum a todos os clans do kongo.

B Papel do Nkutu

O nkutu do kongo servia para recolher impostos sob a forma de Nzimbu, e também para guardar documentos do arquivo real. No Soyo ele tem essas duas funções e também a de relicário familiar, tudo de uma maneira simbólica. O nkutu do Soyo contém: ntanda a kodal, uma corda com as pérolas vermelhas (coral) enfiadas; ntanda a sungu, um cordão com os cauris; lundu dua kulu dia ndundu bu kadi, o fêmur de um albino; crucifixo e medalhas de fabricação indígena, modelo daqueles introduzidos pelos primeiros missionários. Cada objeto tem sua significação e seu emprego próprios. Para os conhecer é necessário uma pessoa qualificada para os explicar, é necessário recorrer a interpretação por ocasião de cerimônias onde esses objetos são encontrados.
O crucifixo como emblema de autoridade indígena parece ser posterior ao período dos missionários capuchinhos; ele não aparece sobre as antigas gravuras que mostram o rei do Kongo, tinha seu cetro e seu cetro não parece coroado por um crucifixo. Quando os missionários abandonaram o país, o crucifixo passou a ser um objeto de bendição entre as mãos dos chefes

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Noz de cola entre os bantandu - grupo bakongo

A noz de cola é o fruto do colateiro (cola acuminata) planta da família dos sterculiacées, tais como o cacau, de origem da África tropical e da América Latina.
A noz de cola é apreciada por seu gosto amargo e ardente e apreciada sobretudo por suas propriedades tônicas e adestringentes. Ela contém cafeína, é um bom estimulante nervoso e tônico para o coração. Ela tem a reputação de facilitar a digestão e ter propriedades afrodisíacas.
Ela constitui junto com o vinho de palma (e o galo) os presentes que oferecemos aos”bakulu” (antepassados), nos casamentos e aos estrangeiros (os que visitam os membros do clã)
Distribui-se entre os convidados em todas as cerimônias como símbolo de boas vindas, símbolo de amizade ou para selar pactos de amizade ou promover a reconciliação. Distribui-se como um gesto de saudação com uma parte (da noz de cola) deslizando da palma da mão.